3# BRASIL 4.6.14

     3#1 O BRASIL PRECISA DE EXEMPLOS
     3#2 NO D MAIS TEMPO
     3#3 JUIZ NO  TRIBUNAL
     3#4 ISSO  PROGRESSO?
     3#5 ELE  AMIGO DOS AMIGOS
     3#6 SINDICATO DO CRIME
     3#7 NO ESTILO DO DUELA A QUIEN DUELA
     3#8 EXPEDIO VEJA  UM MOSQUITO CONTRA A DENGUE

3#1 O BRASIL PRECISA DE EXEMPLOS
O legado do ministro Joaquim Barbosa transcende a priso de um bando de corruptos poderosos. Ele mostrou que  possvel fazer a coisa certa sem precisar transigir ou flertar com o que existe de errado.
DANIEL PEREIRA

     O mineiro Joaquim Barbosa sempre acreditou no esforo pessoal. Filho de um pedreiro e uma dona de casa, estudou em escola pblica, formou-se numa universidade federal e assumiu importantes cargos depois de ser aprovado em concurso.  carreira no Ministrio Pblico, acrescentou uma slida histria acadmica, com passagens, como estudante e professor, por renomadas instituies de ensino do Brasil e do exterior. Barbosa construiu sua trajetria sem a ajuda de padrinhos influentes e sem pedir favores. Numa sociedade acostumada a atalhos duvidosos e ao jeitinho, preferiu o rduo caminho da meritocracia. Essa biografia chamou a ateno do presidente Lula. Em 2003, ele indicou Barbosa para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo de Lula era nomear pela primeira vez um negro para a mais alta corte do Judicirio e, assim, tirar do papel a agenda de polticas afirmativas do governo. O que Lula no sabia  que a escolha renderia frutos bem maiores. Ele escalara o homem certo, na hora certa, para desferir o mais duro golpe contra a corrupo na histria recente do pas. Sorte dos brasileiros de bem, azar do PT. 
     Em 2012 e 2013, durante mais de sessenta sesses plenrias, Barbosa comandou o julgamento do mensalo, como relator do processo e, depois, tambm como presidente do STF. O resultado criminal  conhecido: o Supremo concluiu que o PT subornou parlamentares para se perpetuar no poder, durante o primeiro mandato de Lula, e condenou a antiga cpula do partido  priso. O resultado simblico tambm  conhecido: a Justia finalmente se fez valer para todos, sem distino, o que foi considerado um divisor de guas na luta contra a impunidade que h sculos privilegia os poderosos no Brasil. Anunciadas as penas e decretadas as prises, Barbosa se tornou uma espcie de heri nacional, o cavaleiro vingador da capa preta, aplaudido nas ruas e assediado para disputar as eleies (veja a matria na pg. 58). Mas esse era apenas um dos lados da moeda. A outra face, menos evidente, levou o ministro a anunciar, na quinta-feira, que deixar o Supremo em junho, onze anos antes do prazo fixado para sua aposentadoria compulsria. "Minha misso est cumprida", disse Barbosa. 
     Em fevereiro, VEJA revelou que o ministro cogitava antecipar a aposentadoria. Essa possibilidade ganhou fora depois de o plenrio derrubar a condenao por formao de quadrilha imposta aos mensaleiros. Barbosa, que se acostumara a formar a maioria, acabou derrotado na votao. Ele suspeitava que dali para a frente, devido  nova composio do tribunal, tenderia a ser sempre derrotado nos embates criminais mais polmicos. "Essa  uma tarde triste para o Supremo. Com argumentos pfios, foi reformada, jogada por terra, extirpada do mundo jurdico, uma deciso plenria slida e extremamente bem fundamentada", lamentou o ministro. A reao estava diretamente relacionada s dificuldades presentes no caso. Lula e o PT jogaram pesado para adiar o incio do julgamento, numa tentativa de facilitar a prescrio de certos crimes. Tambm procuraram ministros para convenc-los a reduzir as penas da companheirada e suavizar o enredo criminoso. Quando o julgamento finalmente comeou, Barbosa teve de comprar uma srie de brigas para tirar o tribunal de uma espcie de zona de conforto. Uma zona de conforto que, registre-se, sempre contribuiu para dificultar a condenao de polticos, empresrios e banqueiros. 
     Barbosa bateu de frente com os prprios colegas para garantir e acelerar as votaes. Chegou a agredi-los verbalmente, acus-los de cumplicidade com chicanas e acabou isolado dentro do tribunal. Pagou um custo pessoal que, segundo seus assessores, foi compensado pelo benefcio proporcionado  sociedade. O ministro tambm partiu para um duelo aberto com os maiores criminalistas do pas. Recusou-se a receb-los para conversas informais. Parece irrelevante, mas no . No so poucos os magistrados que fazem questo de agradar aos grandes nomes da advocacia nacional, mesmo que por meio de pequenos gestos. De origem humilde, Barbosa teve coragem de romper com esses "rapaps aristocrticos", conforme expresso lapidar cunhada pelo antroplogo Roberto DaMatta. O custo pessoal, novamente, no foi pequeno. 
     "As grandes marcas dele, infelizmente, so a truculncia no trato e a intolerncia com os pontos de vista que no convergiam com os dele", afirma Alberto Toron, advogado do petista Joo Paulo Cunha, o ex-presidente da Cmara encarcerado na Papuda. Barbosa, de fato, nem sempre lida bem com a divergncia. Muitas vezes, mostrou-se iracundo e autoritrio. Certa vez, mandou um jornalista "chafurdar na lama" porque ele ousou lhe fazer uma pergunta. Para o ministro aposentado do STF Carlos Velloso, Barbosa pecou na forma, mas, no caso do mensalo, acertou em cheio no contedo. "As instituies valem por si, mas a grandeza depende das pessoas que fazem funcionar as instituies. Barbosa conduziu com firmeza um julgamento exemplar de um processo tormentoso, com muitos rus, e no eram rus quaisquer", diz Velloso. Se no tivesse coragem de enfrentar tantas trincheiras, talvez o STF estivesse at hoje s voltas com requerimentos, peties, questes de ordem... 
     Depois do mensalo, Barbosa definiu duas prioridades. Uma delas era participar do julgamento sobre as perdas decorrentes dos planos econmicos. Trata-se de um processo bilionrio que ope correntistas a instituies financeiras. No STF, especulava-se que o ministro, aps mandar polticos e empresrios para a cadeia, votaria contra os bancos. Com a anlise desse caso econmico adiada novamente, Barbosa decidiu antecipar a aposentadoria. A outra prioridade era garantir a eficcia das penas aplicadas aos mensaleiros. Barbosa se insurgiu contra os privilgios concedidos a eles na cadeia. Recentemente, suspendeu a autorizao de trabalho externo. Com base num laudo mdico, revogou a priso domiciliar de Jos Genoino. O ex-ministro Jos Dirceu nunca recebeu aval para trabalhar fora do presdio. Os advogados dos mensaleiros recorreram dessas decises ao plenrio do STF. No est certo se o julgamento do recurso ocorrer antes ou depois da aposentadoria de Barbosa. 
     Se a sada tiver acontecido, ser sorteado um novo relator, e a presidncia j estar sob a responsabilidade de Ricardo Lewandowski. Afilhado poltico da ex-primeira-dama Marisa Letcia, Lewandowski  lhano no trato, tem boas relaes com os colegas e os advogados e defendeu a absolvio de Dirceu e Genoino no processo. Especialista nos "rapaps aristocrticos", ele  a anttese de Barbosa. O PT no v a hora de seu algoz sair de cena. De certa forma, tambm se cansou da briga. "A postura dele no foi de um estadista do Poder Judicirio. Constatamos uma postura carregada de dio que no caberia a um juiz", disse o deputado Vicentinho, lder do PT na Cmara, ao comentar a aposentadoria. Essa declarao  legtima e faz parte do jogo democrtico. Pena que o PT no pare por a. Militantes do partido na internet, como VEJA mostrou, chegaram a ameaar Barbosa de morte. "Contra Joaquim Barbosa toda violncia  permitida, porque no se trata de um ser humano, mas de um monstro e de uma aberrao moral das mais pavorosas. Joaquim Barbosa deve ser morto", escreveu um deles. 
     Extenuado, o ministro quer se afastar da artilharia petista e, mais importante, virar a pgina do mensalo. Para ele, o assunto est encerrado, pacificado. No   toa. Sob sua batuta, o Supremo deu aos brasileiros uma lio de moralidade e intransigncia com as roubalheiras. Uma lio que at desafetos, como o ministro Marco Aurlio, fizeram questo de ressaltar: "O Supremo, como colegiado, acabou por reafirmar que a lei  lei para todos indistintamente e que no se agradece a esse ou aquele ato a partir da ocupao da cadeira no Supremo". Barbosa no agradeceu a Lula, o que permitiu ao pas dar um passo importante em sua escalada civilizatria. Eis a um grande legado. 

A MERITOCRACIA DO ESFORO
Muito pobre na infncia, Joaquim Barbosa estudou, trabalhou, foi aprovado em concurso pblico e chegou  mais alta corte de Justia do pas sem precisar de amigos influentes, favores ou uma mozinha de polticos
1- Nascido em uma famlia humilde de Paracatu (MG), Joaquim Barbosa teve de trabalhar desde cedo para sustentar a casa. Filho de um pedreiro e uma dona de casa, ajudava o pai a fabricar tijolos e a entregar lenha
2- Aos 16 anos, Barbosa foi sozinho para Braslia, arrumou emprego em uma grfica, e terminou o ensino mdio, sempre estudando em colgio pblico. 
3- Aos 22 anos, tornou-se oficial de chancelaria do Ministrio das Relaes Exteriores. Depois acabou reprovado num concurso para diplomatas devido, diz ele, a preconceito racial.
4- Formado em direito, foi aprovado no concurso para procurador da Repblica. Fez doutorado na Sorbonne, em Paris, foi professor visitante na Universidade Colmbia, em Nova York, e na Universidade da Califrnia.
5- Em 2003, Joaquim Barbosa estava nos Estados Unidos quando foi convidado pelo ex-presidente Lula a assumir a vaga no STF.

AS BOAS BRIGAS DO MINISTRO
Alm de implacvel com os mensaleiros, Joaquim Barbosa travou embates com associaes de classe e com o Congresso. Tambm fez severas crticas aos polticos.
AUTONOMIA DOS PODERES  Separao de poderes no  uma noo abstrata. Faz parte do direito de todos os cidados. Integra o conjunto de mecanismos constitucionais pelos quais um poder contm ou neutraliza os abusos do outro (...) Por que alterar isso agora, em pleno sculo XXI? Essa medida (proposta aprovada pela CCJ da Cmara que submetia as decises do STF ao Congresso Nacional), se aprovada, fragilizar a democracia.
CONLUIO ENTRE JUIZ E ADVOGADO  Uma pessoa poderosa pode contratar um advogado poderoso com conexes no Judicirio, que pode ter contatos com juzes, sem nenhum controle do Ministrio Pblico ou da sociedade. E depois vm as decises surpreendentes.
DESIGUALDADE DA JUSTIA  O Brasil  um pas que pune muito pessoas pobres, pessoas negras e pessoas sem conexes. Pessoas so tratadas diferentemente pelo status, pela cor da pele, pelo dinheiro que tm. Tudo isso tem um papel enorme no sistema judicial e especialmente na impunidade.
CONGRESSO NACIONAL  A debilidade mais grave do Congresso  que ele  inteiramente dominado pelo Poder Executivo. O Congresso no foi criado para nica e exclusivamente deliberar sobre o Poder Executivo. Cabe a ele a iniciativa da lei. Temos um rgo de representao que no exerce em sua plenitude o poder que a Constituio lhe atribui.
CRTICA AOS POLTICOS  Os polticos querem o poder pelo poder. Esta  uma das grandes deficincias, a razo pela qual o Congresso brasileiro se notabiliza pela sua ineficincia, pela sua incapacidade de deliberar.
LENTIDO DA JUSTIA  Gastam-se bilhes para o bom funcionamento da mquina judiciria, mas o Judicirio que aspiramos a ter  sem firulas, floreios ou rapaps (...) O que buscamos  um Judicirio clere, efetivo e justo. De nada valem as edificaes suntuosas, o sofisticado sistema de comunicao, se naquilo que  essencial a Justia falha, porque  prestada tardiamente.
PARENTES DE JUZES ADVOGANDO  H um grande dficit de Justia entre ns. Nem todos os brasileiros so tratados com igual considerao quando buscam a Justia. Ao invs de se conferir  restaurao de seus direitos o mesmo tratamento dado a poucos, o que se v aqui e acol  nem sempre,  claro, mas s vezes sim   o tratamento privilegiado, o by-pass.

COM REPORTAGEM DE ROBSON BONIN E HUGO MARQUES


3#2 NO D MAIS TEMPO
O ministro Joaquim Barbosa nunca descartou a hiptese de disputar eleies no 
futuro, apesar de sua total falta de apreo pela poltica e pelos polticos.
HUGO MARQUES

 inegvel o potencial eleitoral do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa. Em novembro do ano passado, uma pesquisa do Instituto Datafolha mostrou o ministro em segundo lugar na corrida presidencial,  com 15% das intenes de voto,  frente do senador Acio Neves (PSDB) e do ento governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). Barbosa aparecia como pea-chave na estratgia destinada a evitar a reeleio da presidente Dilma Rousseff no primeiro turno. Ele gozava de uma situao privilegiada apesar de jamais ter disputado uma eleio e jamais ter se anunciado como candidato. O ministro era aclamado nas ruas por um feito que deveria ser considerado corriqueiro, e no excepcional: ele cumpria seu trabalho de forma correta e, sobretudo no caso do mensalo, mostrando aos brasileiros que a lei valia para todos, de ps-rapados a ladres de colarinho-branco. Dias depois de determinar a priso de petistas estrelados. Barbosa sofria presso de polticos e setores da sociedade, principalmente nas redes sociais, para que  disputasse a eleio. Foi em vo. Como no se filiou a um partido dentro do prazo definido por lei, ele no concorrer em 2014. Nada que lhe reduza o potencial eleitoral. 
     Os principais rivais do PT desejam uma declarao pblica de apoio do ministro. Querem-no em seus palanques. Pelo menos no caso do PSDB, esse  um sonho antigo. Uma importante fileira de tucanos nutriu o sonho de ver Barbosa como vice na chapa de Acio. Os dois se conhecem pessoalmente. O plano agora  t-lo como cabo eleitoral na TV e em eventos pblicos. Um aceno nesse sentido foi feito por Acio to logo Barbosa anunciou sua aposentadoria. Disse o senador: "Ele  um homem que o Brasil aprendeu a respeitar. Pode-se gostar ou no dele, mas  ntegro, honrado e fez muito bem  Justia brasileira". No incio do ano, o PSB tambm enviou emissrios para sondar os humores do ministro, como a ex-corregedora nacional de Justia Eliana Calmon. A tendncia  que o PSB retome a carga, valendo-se do fato de Barbosa compartilhar de posies externadas pela ex-ministra Marina Silva, que ser vice na chapa de Campos. Marina e Barbosa so crticos dos partidos brasileiros e da chamada velha poltica. "Precisar entrar num partido para concorrer  um absurdo, uma camisa de forca. Sou favorvel  candidatura avulsa", costuma repetir Barbosa. 
     Na quinta-feira, quando informou aos presidentes dos outros poderes de sua aposentadoria. Barbosa rechaou a possibilidade de participar do processo eleitoral neste ano.  presidente Dilma, contou que pretende passar uma temporada no exterior durante as eleies. Ao presidente da Cmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB), foi ainda mais taxativo. "De jeito nenhum", respondeu ao ser indagado sobre sua participao na campanha eleitoral deste ano. "Vou parar um pouco. Quero ver a Copa do Mundo." Eleio, portanto, s a partir de 2016. A possibilidade de disputar um cargo no futuro j foi admitida por Barbosa. Mas ele sempre fez questo de ressaltar que no faria nada de forma aodada. "Conheo o pas. No sou um homem de aventuras"  um de seus mantras prediletos. Um dos problemas a ser enfrentados por ele  escolher a qual legenda aderir. Grosso modo, Barbosa divide os partidos em dois grupos. Num deles, esto as siglas que se venderiam e viveriam para fazer negcio.  o varejo. No outro, despontam as grandes agremiaes, controladas por caciques que, como o ministro explicou a um amigo, "no vo querer abrir as portas para mim". Motivo? "O Brasil  governado por pessoas provincianas em todos os quadrantes. O Congresso est cheio de gente provinciana. Voc no vai encontrar quase ningum l capaz de falar sobre assuntos relevantes com um chefe de Estado. O sistema est caminhando numa direo em que s os medocres tm espao." 
     Como VEJA revelou em fevereiro, Barbosa diz ter certa afinidade com o PT de outrora, dos tempos de oposio, aquele que defendia a reduo da desigualdade, entre outras bandeiras sociais, e se apresentava intransigente na defesa de valores e modos republicanos. "No esse PT de hoje tomado por bandidos, pela corrupo." Enquanto a carreira poltica e a disputa eleitoral no passam de hipteses, Barbosa se dedicar  advocacia. Ele tambm estuda convites para voltar a dar aulas no ensino superior. Outro plano  fazer palestras, exatamente como o ex-presidente da Repblica que o indicou ao STF e hoje o considera um traidor da nao petista. "Vou fazer o que o Lula est fazendo", disse ele a Alves, sem conter a risada. No campo pessoal, uma das prioridades  se tratar de um problema crnico nas costas. H anos, o ministro sofre com fortes dores decorrentes de uma inflamao na base da coluna. O martrio chegou ao pice durante as mais de sessenta sesses de julgamento do mensalo. Lula e o PT bem que tentaram vergar as instituies, subjugando-as em nome do projeto de poder do partido. Foram impedidos por um Barbosa reto e vertical. 

POPULARIDADE
O ministro passou a ser celebrado nas ruas e nas redes sociais, como na reproduo ao lado  PARA PRESIDENTE -  Eu quero a candidatura deste Real e leal representante da dignidade do povo brasileiro!


3#3 JUIZ NO  TRIBUNAL
O legado definitivo de Joaquim Barbosa no STF vai alm das acusaes de que contribuiu para judicializar a poltica (para uns) e politizar a Justia (para outros).
ANDR PETRY

     Assim que foi anunciado como ministro do Supremo Tribunal Federal, em maio de 2003, Joaquim Barbosa chamou ateno pela cor da pele. Era o primeiro ministro "reconhecidamente negro" da corte, considerando que dois mulatos j haviam passado pelo tribunal. Ningum discutiu seu perfil jurdico, muito menos suas inclinaes polticas ou ideolgicas  at que, em setembro de 2007, Barbosa apresentou 430 pginas de denncia contra os envolvidos no escndalo do mensalo. Da em diante, ao ocupar o centro de um julgamento de formidveis implicaes polticas, Barbosa passou a encarnar talvez o perodo mais controvertido da histria do Supremo. Uns o acusavam de politizar a Justia, por decidir com dois pesos e duas medidas. Outros o acusavam de judicializar a poltica, ao confrontar decises do Congresso e polemizar com seus lderes. 
     Nesse ambiente conflagrado por paixes polticas e jurdicas em torno do mensalo,  quase inevitvel perder o foco da questo principal, a saber: Barbosa foi um juiz justo? Barbosa comandou um julgamento justo? As respostas a essas perguntas vo definir o modelo de Justia que o Brasil quer construir para, quem sabe um dia, eliminar a chaga da impunidade. O jurista Celso Bandeira de Mello qualificou Barbosa como "um homem mau". Seu ex-colega de Supremo Eros Grau classificou-o como um "orgulho do tribunal", por sua "serenidade e prudncia". Ives Gandra Martins, tributarista de renome, disse que Barbosa  um "homem duro". Mas nenhum outro ministro tem f-clube, pgina de admiradores no Facebook, mscara de Carnaval e campanha para ser candidato a presidente da Repblica  assim como a renncia de nenhum outro membro do Supremo foi literalmente festejada por advogados e juzes Brasil afora, que por ele nutrem um desabrido dio corporativo. 
     Para decifrar o legado de Barbosa, talvez seja necessrio fazer uma distino entre o magistrado e o Supremo. Pelo seu papel preeminente nos ltimos anos em funo da relatoria do mensalo, Barbosa parece corporificar a corte, mas poucas coisas so mais desiguais do que o juiz e o tribunal. No julgamento do mensalo, Barbosa demonstrou ser um magistrado implacvel, notoriamente movido pelo sentimento de fazer o que lhe parece justo, ainda que, para tanto, seja necessrio recorrer  criatividade para desviar dos obstculos. O tribunal  diferente. Por sua histria, carrega uma tradio formalista, um respeito quase cartorial  superioridade da forma sobre o contedo, e assim tropea com frequncia no que o pblico leigo interpreta como  pura e simplesmente  injustia. 
     Examinado  luz da histria, o julgamento do mensalo foi uma exceo para o tribunal, mas no para Barbosa. Antes, fiel ao seu sentimento de justia, o ministro recorreu a instrumentos e interpretaes semelhantes para fechar o cerco contra Paulo Maluf  que continua livre, milionrio e com mandato. Mas o tribunal discordou. Tentou fechar o cerco contra o deputado Ronaldo Cunha Lima, acusado de tentativa de homicdio, e contra o ex-governador mineiro Eduardo Azeredo, ru no caso conhecido como "mensalo tucano", mas foi sempre voto vencido. No mensalo, suas teses finalmente triunfaram. Das 112 votaes nas sesses da denncia dos mensaleiros, Barbosa ganhou todas, 96 por unanimidade. Dos 37 rus, ele votou pela condenao de 32. O tribunal condenou 25. Chamou o julgamento de "marco histrico" e falou do seu desejo de que seja "um ponto de partida para uma virada institucional". 
     Ser? O senador Fernando Collor est livre das acusaes que levaram  cassao de seu mandato presidencial em 1992. No Supremo, Collor beneficiou- se da absolvio em alguns casos e da prescrio em outros. Luiz Estevo, o ex-senador que ganhou notoriedade pela amizade com Collor e seu envolvimento no propinoduto do Tribunal Regional do Trabalho em So Paulo, continua to livre e rico quanto Maluf. Jos Roberto Arruda, um dos raros polticos do planeta que foram filmados embolsando propina, continua impune. Ficou uns dias atrs das grades, mas agora planeja candidatar-se a governador do Distrito Federal, cargo ao qual foi obrigado a renunciar quando flagrado com a boca na botija. No so sinais de uma "virada institucional". 
     A comparao entre um julgamento e outro  sempre incompleta. Cada caso tem suas peculiaridades e circunstncias, mas a sociedade tem uma intuio bastante clara do que  justia e do que  injustia.  complexo, no entanto, definir no que se constitui a essncia de um julgamento justo. Na despedida de Barbosa, seu colega Marco Aurlio de Mello disse: "Vossa Excelncia veio a ser relator de uma ao penal importantssima na qual o Supremo, como colegiado, acabou por reafirmar que a lei  lei para todos, indistintamente'". Faz parte do protocolo dizer coisas agradveis nas cerimnias de adeus, mas o Brasil, infelizmente, ainda no chegou ao ponto em que a "lei  lei para todos, indistintamente". Espera-se que esteja a caminho disso. A passagem de Barbosa pelo STF aumentou a torcida nacional para que o Supremo, e a Justia brasileira em geral, no volte a ser visto como um instrumento para a impunidade dos poderosos. E que Joaquim Barbosa no seja visto como a ltima esperana  afinal, v. 


3#4 ISSO  PROGRESSO?
Com apoio logstico do governo, ndios protestam contra a poltica de demarcao de terras do prprio governo. E, para no perderem a viagem, decidem reclamar da Copa do Mundo.
ROBSON BONIN

     A capital do pas testemunhou na semana passada um inusitado choque civilizatrio. Cenas exticas justamente no momento em que todas as atenes do planeta esto voltadas para a Copa do Mundo, prestes a comear. Uma das polcias mais bem equipadas e bem treinadas do Brasil se viu de repente acuada por um grupo de ndios, armados com arcos e flechas, que tentava avanar sobre o Estdio Man Garrincha, sede de sete jogos do Mundial. Era um protesto contra a demora do governo federal na demarcao de terras indgenas. O tumulto interrompeu a exposio da taa da Copa, numa tenda contgua ao estdio. Em meio a bombas e pedradas, um policial foi ferido na perna por uma flechada. As imagens do enfrentamento, que remetem ao sculo XIX, rodaram o mundo. Somaram-se s cenas de greves, saques e outras manifestaes que tm contribudo para tisnar ainda mais a imagem do pas da Copa e assustar os turistas que se preparam para vir assistir aos jogos. O mais impressionante  que protestos como esse dos ndios, alm de recorrentes, so incentivados e ao mesmo tempo reprimidos pelo prprio Estado  um aparente paradoxo. 
     Em fevereiro, militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST)  que recebem milhes de reais do prprio governo para financiar suas atividades  avanaram com paus e pedras sobre o Palcio do Planalto. A presidente Dilma Rousseff foi obrigada a cancelar compromissos. A polcia estava l, mas no agiu porque no tinha autorizao oficial para conter o protesto violento. Resultado: policiais feridos, com o rosto ensanguentado, e o Estado de joelhos ante a fria de vndalos. Na manifestao da semana passada, o enredo se repetiu. A ao dos ndios comeou na frente do Palcio do Planalto, estendeu- se pela cpula do Congresso Nacional e, depois, junto de militantes sem teto que protestavam contra a Copa, seguiu em marcha rumo ao estdio. Tudo sem que os manifestantes fossem importunados. Pelo contrrio. O que os policiais fizeram foi bloquear o trnsito de veculos e abrir caminho para que o grupo se dirigisse at as imediaes do estdio. A regio central da cidade parou por quase duas horas. Aps meses de preparao e gastos orados em mais de 2 bilhes de reais em inteligncia e segurana, as foras oficiais mostraram-se incapazes de impedir que um protesto que pedia a demarcao de terras indgenas e casas populares levasse o caos  capital do pas. Mais uma vez. 
     A sensao de dj vu tem explicao no patrocnio oficial dispensado aos companheiros manifestantes. O mesmo governo que  alvo dos protestos contribui decisivamente para que eles aconteam  e a contribuio no se limita  lenincia calculada da polcia, obrigada a no reagir  violncia. No ato de fevereiro do MST, os militantes sem terra viajaram a Braslia para um congresso oficialmente bancado com dinheiro pblico. E, mesmo depois da truculncia exibida diante da rampa do Planalto, o petista Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidncia e responsvel pela "interlocuo com os movimentos sociais", desceu ao encontro dos baderneiros e os afagou arrumando uma audincia com a presidente da Repblica. 
     O roteiro do protesto dos ndios, na semana passada, foi bastante similar, tanto na gnese quanto em seu desfecho. Primeiro, porque 300 silvcolas no saem de diferentes rinces do pas sem que a Funai, subordinada ao Ministrio da Justia, abra o cofre para custear transporte e estada. Alm disso, a exemplo da manifestao dos sem-terra, depois de feita a baderna os ndios foram gentilmente recebidos pelo governo contra o qual protestavam to ferozmente. O afago, desta vez, coube ao ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo. Os ndios ouviram as promessas, no se deram por satisfeitos, mas foram embora sem causar maiores problemas. A ttica do governo  incitar a confuso para, depois, apresentar-se como o nico capaz de conter a algazarra  at que tudo saia do controle. 


3#5 ELE  AMIGO DOS AMIGOS
Flagrado em reunio com criminosos, o deputado Luiz Moura (PT) recebeu doaes de campanha do alto escalo do partido e de ao menos um membro do PCC.

     A eleio do ex-assaltante, ex-presidirio, frequentador de reunies organizadas por faco criminosa e atual deputado estadual pelo PT Luiz Moura foi resultado de um esforo da cpula do seu partido  e no apenas da generosidade de Jilmar Tatto, secretrio de Transportes da prefeitura de So Paulo e financiador de um tero da campanha do deputado em 2010. S a ministra da Cultura, Marta Suplicy, doou ao antigo colaborador 35.000 reais. Quando ela foi prefeita de So Paulo, o agora deputado atuava como lder de perueiros da Zona Leste ao lado de seu irmo, o hoje vereador petista Senival Moura, acusado pelo Ministrio Pblico de registrar veculos de transporte pblico em nome de laranjas para burlar a lei e faturar com o servio. Outros figures petistas, como o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o mensaleiro Jos Genono, tambm constam dos registros do Tribunal Superior Eleitoral como colaboradores da campanha de Moura (veja valores abaixo). 
     O deputado, um velho conhecido da lei  condenado por assalto a dois supermercados em 1993, escapou da cadeia e viveu dez anos como  foragido , voltou a entrar na mira dos policiais h duas semanas em meio  investigao sobre os ataques a nibus cm So Paulo. 
     Dois grandes grupos compem o sistema de transporte paulistano: as empresas tradicionais e as cooperativas, formadas na gesto Marta com a legalizao dos perueiros. Desde o incio deste ano, nibus pertencentes s empresas tradicionais vinham sendo incendiados quase diariamente. O Departamento Estadual de Investigaes Criminais (Deic) passou a investigar os episdios e, em 17 de maro, flagrou uma reunio na garagem de uma cooperativa na Zona Leste supostamente organizada para planejar novos ataques a veculos. Das 45 pessoas presentes, dezoito eram membros da faco criminosa PCC e 26 tinham passagem pela polcia. Moura era um deles. Ao ser abordado, apresentou-se como parlamentar e escapou de ser levado  delegacia. 
     Desde que o nome do deputado apareceu no noticirio, no houve mais registro de queima de nibus em So Paulo. Moura nega qualquer relao com o PCC. Mas, curiosamente, a faco criminosa, ou pelo menos alguns de seus membros, no nega relao com ele. Pelo contrrio. Nos dados do TSE, um de seus doadores  o ex-presidirio Claudemir Augusto Carvalho  condenado por furto, roubo e, segundo o Deic, membro do grupo criminoso que Moura agora renega. 
MARIANA BARROS

OS FINANCIADORES
Jilmar Tatto no foi o nico petista a doar dinheiro para eleger Moura. Registros do TSE mostram que a eleio, em 2010, do deputado amigo do PCC foi um esforo da cpula do PT.
ALOIZIO MERCADANTE - Ministro-chefe da Casa Civil 5584,34 reais.
ARLINDO CHINAGLIA - Vice-presidente da Cmara 16.255 reais.
JOO PAULO CUNHA - Ex-deputado federal 6173,68 reais.
MARTA SUPLICY  Ministra da Cultura e eleita senadora 35.000 reais.
JOS GENONO  Ex-deputado federal 6577 reais.


3#6 SINDICATO DO CRIME
Alm de sete deputados, um assessor ministerial e mais dois mensaleiros aparecem na lista de visitantes do escritrio do doleiro Youssef  mas ningum parece interessado em saber o que eles faziam l
RODRIGO RANGEL

     Na semana passada, VEJA revelou que sete deputados federais foram flagrados pelas cmeras de segurana do prdio onde funcionava o escritrio do doleiro Alberto Youssef  preso h dois meses por operar um gigantesco esquema de corrupo e lavagem de dinheiro envolvendo empresas estatais e funcionrios pblicos de alto escalo. O que uma parte da nobreza do Parlamento fazia num lugar conhecido como centro de captao e distribuio de propina?  fcil deduzir. O problema  que ningum parece querer saber ao certo. Os parlamentares fotografados permaneceram em um conveniente silncio. Seus colegas, inclusive os mais aguerridos, tambm ficaram  espreita. No houve uma nica manifestao de inconformismo, protesto ou um pedido de investigao. Afinal, nada aparentemente mais natural que deputados visitando em So Paulo o escritrio de um conhecido criminoso, em horrio de expediente, quando deveriam estar trabalhando em Braslia. A tolerncia com malfeitos beira a indiferena e no se limita ao Congresso Nacional. 
     Na tera-feira, a deputada Aline Corra, uma das mais assduas visitantes de Youssef, participou tranquilamente de um almoo com a presidente Dilma Rousseff, organizado para oficializar o apoio do PP  reeleio da petista. Dos seis parlamentares flagrados pelas cmeras, cinco so do PP. Sobre as visitas frequentes ao doleiro, Aline Corra tinha a resposta na ponta da lngua caso algum curioso perguntasse. "Eu conheo o Youssef h tempos. Para mim, ele era s um empresrio", dizia a deputada, filha do mensaleiro Pedro Corra, outro que costumava frequentar o bunker at ser recolhido  priso por ordem do Supremo Tribunal Federal. H exemplos de descaso tico ainda piores. Na quarta-feira, o ex-ministro Mrio Negromonte (PP), outro fregus do doleiro, foi escolhido como conselheiro do Tribunal de Contas dos Municpios (TCM) da Bahia. Por indicao do governador Jaques Wagner, do PT, Negromonte, acredite, ser a partir de agora fiscal da boa aplicao do dinheiro pblico nas cidades baianas. Nada mais apropriado para um poltico enredado no maior caso de corrupo do momento. 
     Outros deputados que mantinham laos com o doleiro  como os paranaenses Andr Vargas (ex-PT, hoje sem partido) e Nelson Meurer (PP), o baiano Luiz Argolo (ex-PP, hoje no Solidariedade), o alagoano Arthur Lira (PP) e o catarinense Joo Pizzolatti (PP)  simplesmente se fingiram de mortos. A estratgia deles  ficar em silncio e no chamar ateno at que algum escndalo novo aparea  ttica diferente da adotada pelo senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), destinatrio de depsitos bancrios de 50.000 reais cujos comprovantes foram encontrados pela polcia sobre a mesa de Youssef. Em discurso na tribuna do Senado, Collor chegou a ponto de se apresentar como uma vtima inocente (veja a reportagem na pg, ao lado). A lista de partidos na rede de Youssef tem mais um representante famoso. Assessor especial do Ministrio do Trabalho, o advogado Joo Graa era outra presena constante no escritrio do doleiro, de acordo com os registros da portaria. 
     Homem de confiana do ministro Manoel Dias e do presidente do partido, o notrio Carlos Lupi, Joo Graa j teve o nome envolvido em outras histrias desabonadoras. Numa delas, foi acusado de intermediar um pagamento de propina feito dentro do Ministrio do Trabalho, nas mos do PDT desde o governo Lula. A exemplo dos deputados, Graa se absteve de dar explicaes sobre sua relao com Youssef. Procurado, o ministrio limitou-se a informar que ele estava de frias e se eximiu de providncias adicionais. Na sexta-feira, porm, depois de instado pela reportagem de VEJA a se manifestar, o assessor pediu demisso, mas sem explicar os motivos. A lista de visitantes de Youssef inclui ainda dois denunciados no processo do mensalo: o ex-deputado Jos Borba e Joo Cludio Genu, ex-assessor do PP. 
     A movimentao no escritrio de Youssef era intensa. Pela mesma porta por onde passavam as autoridades de Braslia transitavam outros investigados da Operao Lava-Jato, da Polcia Federal. Compareciam de entregadores de dinheiro que serviam ao doleiro a representantes de empresas que aparecem abastecendo o caixa do esquema operado por ele, sustentado por negcios em diferentes reas do governo  do Ministrio da Sade a estatais como a Petrobras. O bunker era o lugar onde se encontravam os diferentes interesses envolvidos: o das empresas que desejavam contratos e o dos polticos que viabilizavam esses contratos. Ao doleiro cabia a tarefa de equilibrar essa equao. 
COM REPORTAGEM DE ADRIANO CEOLIN


3#7 NO ESTILO DO DUELA A QUIEN DUELA
Enftico, Collor nada diz sobre os 50.000 que caram na sua conta. 

     Certas coisas no mudam nunca. Na segunda-Feira 26 de maio, o ex-presidente e atual senador Fernando Collor (PTB-AL) subiu  tribuna do Senado para rebater a notcia de que a Polcia Federal, durante batida no escritrio do doleiro Alberto Youssef, havia encontrado recibos de depsitos de 50.000 reais na sua conta bancria. Em dezessete minutos e 43 segundos, Collor respondeu inequivocamente ao que ningum perguntou, negou categoricamente o que ningum afirmou e silenciou sobre o que todos querem saber: por que Collor recebeu 50.000 na sua conta e os recibos dos depsitos foram parar no escritrio de um doleiro preso? H exatos 22 anos, em 26 de maio de 1992, o ento presidente Collor fez seu primeiro pronunciamento sobre as denncias do seu irmo Pedro Collor, que acabariam levando ao seu impeachment. Em rede de rdio e TV, Collor falou com firmeza e abusou dos superlativos. Chamou as denncias de "desassossego" e disse que mandara fazer "a investigao mais completa de todos os fatos e todas as alegaes, dentro da mais absoluta transparncia". Como se sabe, o governo no investigou nada e, quatro meses depois, Collor foi expelido do Palcio do Planalto pelo Congresso Nacional. 
     Na semana passada, reapareceram a firmeza, os superlativos e o vazio de contedo. Collor apresentou-se como um perseguido pelos "meios", particularmente VEJA, seus jornalistas e suas "miasmticas MATRIAS. Em tom de conspirao, quis saber por que a revista noticiara um depsito de 8000 reais em abril e, na edio passada, mais sete depsitos que somam 42.000 reais. Em seguida, perguntou por que os recibos foram vazados parcialmente, um pouco em abril, outro tanto agora, como se isso mudasse o cerne da questo, que : por que Collor recebeu 50.000 na sua conta e os recibos dos depsitos foram parar no escritrio de um doleiro preso? 
     "Quem de fato efetuou os depsitos, se no h nenhuma identificao do depositrio, a no ser do local onde foram encontrados os comprovantes?" Pois . Collor no quer dizer ou no sabe como apareceram 50.000 reais na sua conta. Ele ainda aproveitou para afirmar "de forma e de modo categricos" que jamais teve "qualquer relacionamento de ordem pessoal ou poltica" com o doleiro Youssef. Nada disse sobre relaes financeiras. O discurso de Collor lembrou a impagvel entrevista que deu no auge da crise que levou ao seu impeachment. Imaginando falar espanhol, disse a uma TV argentina que eliminaria a corrupo no Brasil "duela a quien duela". Certas coisas no mudam. 
ANDR PETRY


3#8 EXPEDIO VEJA  UM MOSQUITO CONTRA A DENGUE
Um laboratrio em Juazeiro, na Bahia, produz uma linhagem transgnica do Aedes aegypti capaz de reduzir em 90% a populao de insetos transmissores da dengue.
KALLEO COURA

     O mtodo foi inventado por cientistas ingleses, mas saiu de um laboratrio localizado em Juazeiro, na Bahia, a tecnologia que permitiu aplic-lo numa escala indita. A Moscamed Brasil produz, por semana, 1 milho de mosquitos que, modificados geneticamente e soltos na natureza, se transformam em um exrcito de combate  dengue. No ano passado, a doena matou quase 600 pessoas no Brasil. 
     Batizada de OX513A, essa linhagem transgnica do Aedes aegypti  formada apenas por machos, que no picam e portanto no transmitem a doena  tem por funo copular com as fmeas que esto na natureza. Dessa forma, eles transferem para os filhotes um gene letal que contm. Criado pelo laboratrio ingls Oxitec, esse gene fabrica em excesso a protena tTA, que interfere no metabolismo da larva e faz com que ela no consiga produzir outras protenas necessrias para a sobrevivncia. Como a cpula entre os insetos acontece apenas uma vez, o resultado  que cada mosquito transgnico "neutraliza" uma fmea de Aedes aegypti, fazendo com que ela perca a capacidade de gerar novos transmissores da doena. 
     Embora sejam portadores do gene mortal, os mosquitos criados em laboratrio conseguem sobreviver at a fase adulta porque recebem o antibitico tetraciclina, que funciona como uma espcie de antdoto ao gene modificado. "J as novas pupas e larvas que herdam o gene mortal no encontram o antibitico na natureza. Por isso, morrem antes de chegar  fase adulta", explica a biloga Michelle Cristine Pedrosa. Em bairros como Mandacaru e Itaberaba, a soltura dos OX513A reduziu em at 93% a quantidade de mosquitos da dengue. 
     Desde 2005 a Moscamed funciona numa rea cedida pelo governo da Bahia. A iniciativa de criar o laboratrio, uma organizao social (OS), partiu do Ministrio da Agricultura ainda durante a Presidncia de Fernando Henrique Cardoso. O objetivo inicial era produzir moscas-das-frutas estreis, de forma a reduzir a praga que provoca prejuzos de mais de 120 milhes de dlares a cada ano nas lavouras do pas. A escolha de Juazeiro como sede do laboratrio se deu porque, junto com a vizinha Petrolina, a cidade  o principal polo exportador de manga e uva, vtimas frequentes da mosca-das-frutas. Localizada no semirido nordestino, com regime de chuvas escassas, a regio se tornou a maior produtora de frutas do Brasil graas a um intenso trabalho de pesquisa e ao uso das guas do Rio So Francisco na irrigao artificial. 
     Em junho do ano passado, os testes da Moscamed entraram numa nova fase. Pela primeira vez no mundo, a experincia com os mosquitos transgnicos comeou a ser feita no em bairros, como no caso de Juazeiro, mas numa cidade. Jacobina, na Bahia, com 84.000 habitantes, receber, at o fim do ano, 4 milhes de mosquitos por semana. No bairro Pedra Branca, onde os testes tiveram incio, a reduo no nmero de mosquitos selvagens chegou a 92%. Se o resultado final for to bom quanto o inicial, a tcnica ser incorporada pelo Ministrio da Sade como um dos mecanismos de combate  dengue em escala nacional. 
     Juazeiro e Petrolina foram duas das cidades visitadas pela Expedio VEJA na semana passada. A iniciativa de percorrer o pas para mostrar histrias de superao individual e coletiva, alm de exemplos de produtividade, competitividade e empreendedorismo, chega perto de sua reta final. Nesta semana, o nibus de VEJA seguir em direo  Regio Sudeste. Antes de retornar a So Paulo, passar por Porto Real (RJ) e So Jos dos Campos (SP). 


